Você conhece a gagueira?

Chamar a atenção da criança para sua fala durante o desenvolvimento da linguagem pode gerar bloqueio em relação a certas palavras

Mariane de Oliveira

A fonoaudióloga Deizi atende uma paciente na sala de terapia (Foto: Mariane de Oliveira)

Gagueira ou disfemia é um distúrbio em que acontecem quebras ou rupturas involuntárias no fluxo da fala, o que dificulta a comunicação da pessoa e faz com que ela repita sílabas e faça pausas durante a pronúncia de palavras ou frases. A gagueira fisiológica geralmente surge entre dois e quatro de idade, sem dano cerebral aparente. Já a gagueira adquirida, também conhecida como gagueira neurogênica ou neurológica, ocorre muito mais frequentemente em adultos após um dano cerebral definido, ocasionado por um derrame, uma hemorragia intracerebral ou um traumatismo craniano. A gagueira atinge cerca de 60 milhões de pessoas no mundo e dois milhões no Brasil.

A gagueira fisiológica pode ocorrer com frequência em crianças, na maioria das vezes por um período curto de alguns meses, mas mesmo assim não deixa de apavorar e preocupar muitos pais. Esse é o caso da monitora escolar Francielie Dal Bem, 31, que passou por esse problema quando seu filho A.D.B tinha três anos e meio de idade. No momento em que notou a dificuldade no filho, Francielie procurou um médico pediatra que a aconselhou se acalmar e não forçar a pronúncia correta do filho que, alguns meses depois, começou a falar normalmente. Essa disfluência é normal durante o desenvolvimento da linguagem, pois a velocidade do pensamento da criança não acompanha sua velocidade verbal devido à imaturidade dos órgãos fonoarticulatórios para a pronúncia de todos os fonemas.

Em conversa com o Prosa e Prozac, a fonoaudióloga Deizi Cardinal, 39, explica que os pais e pessoas próximas de uma criança que apresente disfluência devem evitar chamar a atenção da criança para corrigir as palavras e forçá-la a falar na frente de pessoas estranhas. Também devem ocultar gestos ou ações que demonstrem preocupação com a maneira de falar da criança, além de interromper sua fala no início ou meio da frase. “Essas atitudes geram na criança uma tensão em relação à fala, criando os bloqueios, o medo, o embaraço e o evitamento de certas palavras. Assim, o problema inconsciente torna-se consciente”, explica a fonoaudióloga.

Os poucos casos de gagueira que persistem por mais tempo passando dos 5 anos de idade estão associados a alterações anatômicas e funcionais do cérebro. Por isso, se a criança apresentar sintomas adicionais – como fazer careta, contrair os olhos ou bater o pé – ela deve passar por uma avaliação fonoaudiológica e buscar um tratamento especializado.

No início deste ano, a gagueira esteve bastante em voga. O filme “O Discurso do Rei”, grande vencedor do Oscar 2011, relata a história de George VI, gago desde os 4 anos de idade que inesperadamente se torna rei da Inglaterra e considera-se incapaz de governar por conta de sua gagueira. No reality show “Big Brother Brasil 11”, Diogo Preto, um dos participantes, expôs sua disfluência no programa e acabou conquistando os demais brothers e telespectadores com seu carisma e simpatia.

Símbolo da campanha de atenção à gagueira (Foto: divulgação)

Infelizmente, pessoas com disfemia ainda sofrem preconceito da população em geral, muitas vezes por essa dispor de pouco conhecimento sobre a doença. Em parte das vezes, o preconceito acontece dentro das escolas, através do bullying (termo em inglês utilizado para descrever atos de violência física ou psicológica, intencionais e repetidos, praticados por um indivíduo) pelos alunos que fazem piadas sobre o problema, ocasionando o agravamento da disfemia na criança.

A gagueira ainda não tem cura, mas há tratamentos que podem minimizar o problema, melhorando a fluência do paciente e suas relações interpessoais. Qualquer pessoa pode apresentar episódios de disfluência quando fala em público ou frente a uma emoção forte, por exemplo.

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2 respostas a Você conhece a gagueira?

  1. Maurício diz:

    Não acredito que crianças possam adquirir gagueira apenas pelo motivo mencionado no texto (“chamar a atenção da criança para sua fala durante o desenvolvimento da linguagem”).

    Em 1939, uma fracassada tentativa de comprovar esta hipótese resultou em um dos estudos mais antiéticos da história da ciência (veja abaixo):

    http://gagueira.wordpress.com/2010/05/09/o-dossie-do-estudo-monstro/

    E também nunca é demais lembrar que a ciência já conhece uma das causas da gagueira: http://glo.bo/b3hmCF

    Infelizmente, a fonoaudióloga Deizi Cardinal omitiu essa importante informação.

  2. Mariane diz:

    Olá Maurício!

    Falei no texto que atitudes como essa de chamar a atenção da criança para a pronúncia correta das palavras pode agravar o problema que já existe e não gerar a gagueira. Acho que a linha de apoio do texto não ficou bem colocada.
    Além da fonoaudióloga, outros médicos me falaram a mesma coisa.

    Vou ler o texto sobre o estudo de Wendell Johnson. Obrigada por visitar o blog.

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