Vamos ficar com ele?

A adoção consciente beneficia não só animal e dono, mas também a sáude da população

João Marcelo Faxina e Shana Rocha Nazário

Cachorro nas ruas de Frederico Westphalen (Foto: João Marcelo Faxina)

Os animais que circulam pelas ruas de Frederico Westphalen oferecem riscos à segurança e à saúde da população. Eles, porém, também são vítimas: das pessoas que os maltratam, da falta de iniciativa municipal para controlar sua reprodução e tirá-los das ruas, e até da natureza que os fez animais, e assim não lhes deu condições de se proteger. A conscientização da população deve ser o primeiro passo para que uma mudança de comportamento aconteça.

Os cachorros de rua, também chamados de vira-latas ou sem raça definida (SRD), devem ser tratados para evitar a proliferação da leptospirose (transmitida pela urina do animal), da raiva (através da mordida do animal infectado), da sarna e de ectoparasitas (como piolhos, pulgas e carrapatos).  A tuberculose pode ser transmitida pelas secreções de respiração do animal, e a transmissão da brucelose acontece principalmente pelo contato com secreções vaginais e restos de placenta durante o parto. A micose também se dá através do contato direto, embora tenha um nível baixo de contaminação devido à imunidade natural que as pessoas e animais apresentam a ela. Já as verminoses são transmitidas, principalmente, pelo contato com fezes contaminadas ou com alimentos contaminados com fezes. É o caso do bicho geográfico, por exemplo, comum em regiões litorâneas.

O veterinário Vitor Severo, 27, diz que é muito raro o contágio da sarna pelos humanos, pois o agente da doença não sobrevive na pele humana por muitos dias. A leishmaniose (doença que, através da picada do mosquito conhecido por mosquito-palha, contamina o animal), embora já tenha assombrado o estado nos últimos anos, é mais recorrente nas regiões norte e nordeste do Brasil. Severo explica que a melhor forma de evitar que os cachorros fiquem nas ruas contraindo doenças é fazendo tratamentos para verminoses e ectoparasitas periodicamente. É importante alimentá-los com ração e alimentos de qualidade específicos para cães e manter boas condições de higiene. O veterinário dá algumas dicas para que as pessoas não se contaminem com doenças dos animais, sejam eles domésticos ou de rua:

  • Não compartilhe cama e alimentos com os animais
  • Evite carinhos, como beijos e/ou lambidas, muito próximos ao rosto (lábios, nariz e olhos)
  • Vacine os animais para as doenças que possuem vacina preventiva
  • Vermifugue os animais periodicamente
  • Recolha rapidamente as fezes e a urina dos animais (não as deixando expostas a moscas e ao contato humano) e desinfete adequadamente o local
  • Evite acúmulo de lixos

Os cachorros de rua também oferecem risco à segurança da população, atacando pedestres, ciclistas e, principalmente, crianças. Elas são alvos fáceis pois não percebem o perigo de muitos animais. A estudante Gabriella Belle, 21, conta que, em alguns dias, há um cão bravo em frente ao seu prédio, que late e corre atrás dos passantes. “Uma noite eu voltava pra casa e esse cachorro de  rua começou a latir pra mim. Parei por um tempo e, conforme eu caminhava, ele vinha mais em minha direção. Fiquei esperando que ele se ele afastasse, mas ele continuou rosnando. Tentei me esquivar, mas quando percebi que ele ia mesmo me atacar saí correndo. Entrei em casa com ele logo atrás”, conta a estudante.

É importante que a comunidade tenha conhecimento dessas doenças e do perigo que os animais de rua oferecem a sua saúde para que ocorra um amadurecimento em relação ao abandono de animais. Essa é a proposta da Associação Melhores Amigos dos Animais (AMAA), organização que surgiu no ano passado e que, mesmo sem uma sede física, vem desempenhando um importante papel para a mudança desse cenário. A ONG recolhe os animais da rua, os trata, castra e oferece à adoção. Quem não quer ter um animalzinho em casa também pode ajudar custeando a castração de um animal de rua através do projeto “Padrinhos da castração”. Visite o blog da AMAA e saiba como participar.

Uma gata castrada: menos 160 gatinhos (Foto: João Marcelo Faxina)

A conta é simples: uma gata tem cerca de quatro cios por ano. Cada um deles origina, em média, quatro filhotes. Se a gata viver dez anos, ela colocará 160 gatinhos nas ruas. Isso sem contar a reprodução que seus netos, bisnetos e tataranetos empreenderão pela cidade. Se considerarmos o parâmetro anterior, da gata original até seus tataranetos serão 40.960 gatinhos à procura de um lar. Se todos esses felinos fossem adotados apenas por frederiquenses, teríamos 1,42* gato por habitante, ou seja, uma situação improvável. Por isto a castração é importante: interrompe o crescimento desordenado de cães e gatos, diminui a proliferação de doenças e aumenta a chance de todos os animais terem um dono.

A presidente da AMAA, Sonia Salete Paim, 49, diz que a associação está aberta à participação da comunidade frederiquense, seja através de doações ou de trabalho voluntário. As reuniões da ONG acontecem nas primeiras quintas-feiras de cada mês, às 19h30min, na Câmara de Vereadores. E, no primeiro sábado do mês, há o Brechó e Feira de Adoção na Praça da Matriz.

Os animais de rua podem ser ótimos companheiros. Tirá-los do abandono não beneficia apenas quem os adota, mas também a saúde da população. Quem já possui um animal em casa pode fazer a sua parte, recolhendo as fezes e mantendo o ambiente sempre limpo. A banalização de algumas situações faz com que as pessoas minimizem as necessidades desses animais abandonados. Eles necessitam, sim, de água e comida, mas precisamos enxergar além disso.

 * Para esse cálculo, foi utilizado o número de habitantes do Censo 2010

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